Professor de vela em Ilhabela ganha título em volta ao mundo
Com José Guilherme Caldas e Luiz Bolina, que dá aulas de Wingfoil em Ilhabela, o Barco Brasil conquistou um título inédito entre os disputados na volta ao mundo da Globe 40. Com recursos próprios, ambos formaram a única dupla brasileira na tradicional e desafiadora competição da vela internacional.
Confira no material produzido por Áleff Willian no site nautica.com.br.
Não é de hoje que a vela brasileira escreve capítulos importantes ao redor do planeta. Desta vez, porém, os livros de história terão que dedicar boas páginas ao Barco Brasil: no dia 18, um sábado, a equipe venceu a categoria Sharp (barcos de proa fina), ficou em 3º lugar na classificação geral e fez história na Globe 40 2025/2026, a regata de volta ao mundo que reúne velejadores amadores e profissionais.
A façanha foi alcançada por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina, dupla que forma a única equipe brasileira da Globe 40. Eles chegarem em Lorient, na França, no dia 18, tornando-se o segundo time a cruzar a linha de chegada entre os Sharp, resultado que garantiu o título de campeões da Globe 40 na categoria.
Essa é uma das raras participações brasileiras em uma regata de volta ao mundo, com o time verde e amarelo sendo o único latino-americano da competição. O Barco Brasil também foi o único a completar todas as etapas da Gobe 40 sem realizar troca de tripulação.
Além do desempenho esportivo, a campanha chama atenção fora das águas. Isso porque Caldas e Bolina competiram sem patrocínio, carregando apenas a bandeira do Brasil em uma das competições mais desafiadoras da vela oceânica mundial. Todas as despesas envolvidas com o barco foram aportadas pelo próprio time.
O rumo até o pódio
A última pernada, que partiu de Recife, no Brasil, rumo a Lorient, noroeste da França, começou no dia 29 de março. Para completar o trajeto, a dupla levou exatos 19 dias, 22 horas, 30 minutos e 25 segundos, tempo que permitiu à equipe ser a segunda da Sharp a chegar ao destino, mas a primeira no somatório de toda a categoria.
“Queremos agradecer a todos que nos apoiaram. Foi uma cadeia gigante de apoio, de incentivo. E para nós, que passamos bons e maus momentos, foi sempre o pilar da nossa vontade de fazer o melhor”, declarou José Guilherme ao atravessar a linha de chegada
Porém, antes de fazer história na vela brasileira, a dupla enfrentou momentos de apuros ao longo dos mais de oito meses a bordo. Um deles ocorreu na 5ª pernada, entre Valparaíso (Chile) e Recife, quando o veleiro sofreu sérios problemas técnicos e estruturais devido às condições severas de vento e mar.
Por conta disso, no período entre a 5ª e 6ª etapa, a embarcação precisou de reparos em velas, instrumentos de bordo e outros equipamentos — um aporte financeiro expressivo e inesperado.

Uma vida à vela
Outro ponto que merece destaque é o preparo físico, mental e técnico da dupla, em uma modalidade que exige muito dos competidores. Vale ressaltar que ambos já têm mais de 60 anos — José possui 64, enquanto Bolina tem 60 — e outras carreiras além da vela.
José, por exemplo, é neurorradiologista do Hospital Sírio-Libanês, e Bolina é um operário aposentado, que agora dedica seu tempo a dar aulas de prancha de wingfoil (uma prancha com uma “asa” subaquática) em Ilhabela. Mas, claro: ambos velejam desde cedo.
Inclusive, o neurocirurgião se dividiu entre a regata da Globe 40 e o atendimento aos seus pacientes em São Paulo em cada parada da jornada. Ao longo da competição, foram três vitórias e três segundos lugares nas pernadas — tudo isso, repitimos, sem tripulantes suplentes.
Ao todo, 10 barcos participaram do desafio, todos Classe 40 — daí o nome Globe 40. Oito deles são da categoria Sharp (com a proa mais pontiaguda e mais lentos), modalidade vencida pelo Barco Brasil; e dois da categoria Scow (proa mais arredondada).
O título geral ficou com o veleiro francês Crédit Manuel, comandado pelos também franceses Ian Lipinski e Antoine Carpentier; o segundo lugar terminou com a equipe belga da Belgium Ocean Race – Curium, formada pelo belga Jonas Gerckens e o francês Benoit Hantzperg.
Na foto (de Lean-Marie Liot/Globe40), Luiz Bolina e José Guilherme após a conquista.

